Conservação Internacional apresenta estudo de Infraestrutura Verde-Cinza e Carbono Azul no III Congresso de Manguezais das Américas

Trabalho detalha metodologia de estudo de caso para adaptação de infraestrutura viária em manguezais implementado no Pará

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July 27, 2026

Cidade do Panamá, 27 de julho de 2026 — A Conservação Internacional (CI-Brasil) apresentou o estudo “Restaurando o Carbono Azul dos Manguezais por meio de soluções baseadas na natureza (SbN): a PA-458 como um caso de infraestrutura inteligente para o clima na Costa Amazônica, Brasil (tradução livre do título original em inglês) ” durante o III Congresso de Manguezais das Américas (Congreso Manglares de América, em espanhol), realizado de 20 a 23 de julho no Centro de Convenções de Ciudad del Saber, no Panamá. O evento reuniu pesquisadores, gestores públicos e organizações para discutir o manejo e a conservação de ecossistemas costeiros.

Sob o lema “Raízes unidas, futuros entrelaçados”, o Congresso busca dar seguimento à discussão regional sobre o ecossistema responsável pela conservação de 26% da superfície mundial na América. O evento foi criado em 2019 dentro do projeto “Manglares do Equador”, na Universidad Espíritu Santo, em Samborondón, Equador. O segundo ocorreu em Mérida, Yucatán, México.

A apresentação no evento foi ministrada pelo coordenador de projetos da CI-Brasil, Alex Alves. “É de suma importância levarmos as discussões e iniciativas baseadas em Soluções Baseadas na Natureza para os manguezais, como é o caso da infraestrutura verde-cinza”, comentou. A apresentação foi baseada no estudo "Infraestrutura verde-cinza na Amazônia costeira: Adaptação e Soluções Baseadas na Natureza para uma nova geração de infraestrutura resiliente ao clima no Brasil".

Infraestrutura verde-cinza (IVC) é uma abordagem que combina técnicas como replantio e reflorestamento junto da engenharia convencional, como a construção de pontes e canais, para promover estruturas resilientes ao clima.

O trabalho sintetiza os resultados de pesquisas aplicadas desenvolvidas entre 2024 e 2026 na costa dos estados do Pará e do Amapá. Como parte da metodologia, a rodovia PA-458, uma estrada conecta a sede do município de Bragança à Vila de Ajuruteua e atravessa uma área com cobertura superior a 90% de florestas de manguezal, foi selecionada para a implementação das intervenções.

A pesquisa revela que as intervenções de IVC ao longo de oito quilômetros da PA-458 permitirão recuperar 363,28 hectares de manguezais, restabelecer a circulação natural das marés e remover mais de 106 mil toneladas de CO₂ até 2050 apenas na área diretamente impactada. A implementação de IVC pode beneficiar cerca de 123 mil pessoas que dependem da estrada para se locomover, ao passo que atualmente, em períodos de maré alta, trechos são bloqueados devido a alagamentos promovendo isolamento e insegurança no trânsito.

Considerando zonas adjacentes degradadas por turismo desordenado, queimadas e ocupação urbana, o potencial total de remoção supera 409 mil toneladas de CO₂, o que reforça o papel da Amazônia costeira como um dos maiores reservatórios de carbono azul do planeta.

Além dos benefícios climáticos, as soluções híbridas podem gerar até 30% de economia nos custos de manutenção da estrada, ampliar sua vida útil e fortalecer a mobilidade e a segurança das comunidades que dependem da via para acessar mercados, escolas, serviços e atividades de subsistência, como a pesca artesanal e a coleta de caranguejos.

“O potencial de requalificação da PA-458 mostra que o futuro da infraestrutura na Amazônia começa quando a engenharia trabalha com a natureza. É um projeto que traduz na prática o que defendemos há anos: soluções baseadas na ciência, que restauram ecossistemas, fortalecem municípios e criam novas oportunidades para o desenvolvimento climático do Brasil. Estamos inaugurando um novo padrão em que cada estrada pode ser também um corredor de resiliência, carbono azul e prosperidade local”, afirma Renan Alves, gerente de Carbono Azul da Conservação Internacional. “Uma solução de nova geração: quando a engenharia encontra o carbono azul”, sintetiza.

Construída entre as décadas de 1970 e 1980 sob um modelo de engenharia que desconsiderava a dinâmica ecológica dos manguezais, a estrada bloqueou fluxos naturais de maré, degradou extensas áreas de mangue e intensificou alagamentos que hoje afetam milhares de famílias. A proposta de requalificação marca uma mudança de paradigma: reprojetar a rodovia para operar em parceria com a natureza - e não contra ela.

A pesquisa foi elaborada em cooperação com o Departamento de Oceano e Gestão Costeira Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Laboratório de Ecologia e Manguezal (LAMA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), Prefeitura de Bragança, as Secretarias de Meio Ambiente do Pará (SEMAS) e do Amapá (SEMA), Meandros Empresa Júnior da Universidade Federal do Pará (UFPA); Associação Sarambuí/PA; MAFE Engenharia; ENVEX Engenharia e Consultoria; Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas e Povos Tradicionais Extrativistas Costeiros e Marinhos (CONFREM) e entidades privadas.

A publicação, lançada de forma inédita durante a COP30, está disponível na íntegra neste link.

Nova fronteira de financiamento climático

A experiência da PA-458 inaugura uma categoria emergente de projetos com forte potencial de financiamento climático internacional, incluindo fundos voltados à adaptação baseada na natureza, infraestrutura resiliente, carbono azul e transição ecológica.

Segundo o Banco Mundial, cada dólar investido em adaptação climática pode gerar até quatro dólares em benefícios líquidos, indicador que reforça o valor econômico da integração entre engenharia e ecossistemas.

As intervenções previstas na PA-458 incluem:

instalação de passagens hidráulicas;

abertura de microcanais vegetados;

dragagem controlada;

restauração ativa de manguezais, com plantio assistido e monitoramento comunitário.

Cada técnica foi desenhada para restabelecer o fluxo natural da água e dos sedimentos, promover qualidade de vida e acesso a serviços pela população local, reduzir alagamentos e recuperar a funcionalidade ecológica de um dos ecossistemas mais importantes do planeta.

Alinhamento às metas nacionais

A iniciativa está alinhada às metas do Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável dos Manguezais (ProManguezal) e Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira, ao Programa Cidades Verdes e Resilientes (PCVR) e ao Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), no eixo Cidades Sustentáveis e Resilientes, que incorporam prevenção de riscos, infraestrutura sustentável e resiliência urbana como pilares da política climática nacional.