Rio de Janeiro (RJ), 10 de julho de 2026 — A inclusão de mulheres ainda é um desafio central para que a restauração de paisagens alcance todo o seu potencial social e ambiental no Brasil. É o que aponta o artigo Gender disparity and biases in ecological restoration in Brazil, publicado na revista científica Restoration Ecology e assinado por pesquisadores da Conservação Internacional (CI-Brasil), Universidade de São Paulo (USP), Pacto pela Restauração da Mata Atlântica e outras instituições nacionais e internacionais.
O estudo apresenta a análise mais abrangente já realizada sobre a participação de mulheres na restauração ecológica no país, reunindo dados de publicações científicas, pesquisas com profissionais do setor, levantamentos junto a coalizões de restauração e entrevistas com atores locais envolvidos em projetos de recuperação ambiental.
A publicação destaca que a restauração é cada vez mais reconhecida como estratégia essencial para enfrentar a crise climática, a crise de biodiversidade e desigualdades sociais. No entanto, embora seus resultados ecológicos sejam amplamente estudados, as dimensões sociais - especialmente a inclusão de gênero - ainda recebem pouca atenção. Os dados da pesquisa revelam avanços importantes, mas também mostram que barreiras estruturais continuam limitando a presença de mulheres em posições de liderança, no mercado de trabalho e em espaços de tomada de decisão, além de evidenciar relatos de discriminação, assédio e violência enfrentados por mulheres que atuam no setor.
“A restauração de paisagens é uma das principais Soluções Baseadas na Natureza (SBN) para enfrentar a crise socioambiental atual, mas seus benefícios sociais só serão plenamente alcançados quando as mulheres tiverem oportunidades equitativas de participar, liderar e prosperar nesse campo. Ampliar a liderança feminina é fundamental para enfrentar barreiras estruturais, combater situações de assédio e discriminação e construir ambientes mais seguros e legítimos para quem atua na restauração”, afirma Ludmila Pugliese de Siqueira, diretora de Restauração de Paisagens e Florestas da CI-Brasil e autora principal do estudo. “A equidade de gênero precisa estar presente desde o planejamento até a implementação e o monitoramento dos projetos”, completa.
Avanços na produção científica, mas coordenação acadêmica ainda é masculina
A pesquisa analisou 1.520 artigos científicos publicados entre 1995 e 2024 sobre restauração ecológica no Brasil. Os dados indicam crescimento contínuo da participação feminina na produção científica ao longo das últimas três décadas. Atualmente, cerca de 40% dos autores desses trabalhos são mulheres, e a representação feminina entre primeiras autoras já se aproxima da paridade.
Apesar desse avanço, a presença de mulheres entre as últimas autorias, posição frequentemente associada à liderança acadêmica e coordenação de grupos de pesquisa, permanece inferior à dos homens. Segundo os autores, esse padrão reflete desigualdades já observadas em outras áreas das ciências ambientais e evidencia a persistência de barreiras para que mulheres alcancem cargos mais altos na carreira científica.
Mercado de trabalho ainda tem baixa participação feminina
As desigualdades aparecem de forma mais expressiva no mercado de trabalho ligado à restauração ecológica. A partir de dados sobre 4,6 mil empregos temporários e 3,4 mil empregos permanentes em restauração, o estudo mostrou que mulheres ocupavam apenas 29% das vagas temporárias e 27% das permanentes.
A situação é ainda mais crítica em grandes empresas privadas, responsáveis por uma parcela significativa dos empregos relacionados à restauração. Nesse segmento, a participação feminina é especialmente reduzida, indicando que o crescimento do setor não tem sido acompanhado por avanços equivalentes em inclusão e diversidade.
A pesquisa também mostra que homens seguem mais presentes em atividades práticas de restauração. Em um estudo de caso com proprietários rurais envolvidos em projetos no estado de São Paulo, a participação dos homens foi maior em quase todas as etapas analisadas, como planejamento, plantio, definição de áreas, fertilização, manutenção e monitoramento, com taxas que variaram de 55% a 80%
As desigualdades também aparecem nos espaços de liderança. Segundo o artigo, 61% dos respondentes percebem que os cargos de liderança na restauração são ocupados principalmente por homens, enquanto apenas 13% indicam predominância de mulheres nessas posições. Quando perguntados sobre a participação geral na restauração, 41% perceberam maior presença masculina, 22% maior presença feminina e 37% participação de ambos os gêneros.
Assédio e discriminação seguem sendo realidade
Um dos pontos de atenção do estudo está relacionado às experiências de discriminação e violência relatadas por mulheres que atuam na área de restauração ecológica. Entre as mulheres entrevistadas, 49% afirmaram ter sofrido abuso psicológico e 29% relataram episódios de assédio sexual. Além disso, foram registrados relatos frequentes de discriminação relacionada às condições de trabalho (54%), contratação (32%), remuneração (24%) e maternidade (16%).
O artigo aponta que esses problemas aparecem em diferentes setores, atividades e níveis de formação, indicando um desafio estrutural para a permanência e progressão das mulheres no setor. Para os autores, enfrentar esse cenário demanda ações concretas para promover ambientes de trabalho mais seguros, inclusivos e preparados para reconhecer a contribuição das mulheres em todas as etapas da restauração.
Diversidade precisa virar prática
No estudo, 72% dos respondentes afirmaram que as regras de inclusão e diversidade eram pouco claras ou pouco específicas em projetos, organizações e prestadores de serviço. Apenas 9% disseram conhecer bem as normas relacionadas a diversidade, equidade e inclusão em seu ambiente de trabalho.
Diante desse cenário, o artigo recomenda que projetos de restauração incorporem critérios explícitos de equidade de gênero em processos de contratação, composição de equipes, liderança e protocolos de campo. Também aponta a necessidade de metas, mecanismos de monitoramento e responsabilização, canais acessíveis de denúncia, salvaguardas contra assédio e discriminação, além de ações de capacitação e mentoria para ampliar a presença de mulheres em posições de decisão.
Para os pesquisadores, promover a equidade de gênero não é apenas uma questão de justiça social. Evidências apontam que equipes diversas fortalecem processos de tomada de decisão, ampliam a legitimidade das iniciativas e contribuem para melhores resultados socioambientais. Em uma agenda que precisa ganhar escala para responder à crise climática e à crise da biodiversidade, a inclusão de mulheres deve ser tratada como parte central da qualidade, da segurança e da efetividade da restauração.
“Os dados mostram que a restauração não pode ser pensada apenas como uma agenda técnica. A forma como os projetos contratam, protegem, formam e reconhecem as mulheres influencia diretamente a qualidade e a legitimidade das ações no território. Avançar em equidade de gênero é fortalecer a própria restauração”, afirma Ludmila.
Os autores concluem que enfrentar as desigualdades de gênero é essencial para que a restauração ecológica cumpra plenamente seu papel na recuperação dos ecossistemas, no enfrentamento das mudanças climáticas e na promoção de uma sociedade mais justa e inclusiva.
